Enviado por Shirley Costa em Qui, 22/04/2021 - 02:38

A paixão pela leitura se manifestou cedo na vida do escritor, poeta e articulador cultural Vicente Portella, o levando a desenvolver também o gosto pela escrita. E é graças a sua habilidade com as palavras, que ele brinda seus leitores com mais uma obra — O Pária e outros contos —, que devido ao período de isolamento social, em razão do novo coronavírus, ainda não pôde contar com um lançamento presencial.

Fruto de suas experiências e observações políticas e sociais, o sexto livro do autor apresenta, em 120 páginas, parte do universo das favelas do Rio de Janeiro e expõe alguns de seus principais personagens: policiais, bandidos, pastores protestantes, políticos, milicianos e ativistas. No centro de tudo, como personagem principal de seus contos, está o povo, em especial pobres e negros.

Nesta conversa com o Viva Caxias, o escritor conta um pouco mais sobre a obra, sua relação com a literatura e reflete sobre o atual momento do país, de onde veio sua maior inspiração para o livro. Confira:

Como surgiu seu interesse pela escrita?

Surgiu desde muito cedo, a partir do hábito da leitura. Gibis, livros infantis, jornais... ainda crianças líamos de tudo, eu e meus irmãos mais velhos. Nos primeiros anos da adolescência conheci a coleção Para gostar de ler. Eram crônicas de vários autores fantásticos: Luiz Fernando Veríssimo, Carlos Eduardo Novaes, Lourenço Diaféria e outros. Reuníamos a molecada para ler e conversar sobre os textos. Mais tarde, partimos para outros autores, como Jorge Amado, Dalton Trevisan, Carlinhos Oliveira, Fausto Wolff… Uma coisa levou a outra e a vontade de ler passou a ser a vontade de escrever. De registrar e levar aos outros os sentimentos que nos tornavam gente.
 

De onde veio a inspiração para escrever os textos de O Pária e outros contos?

Do Brasil. Vivemos talvez uma das realidades mais cruéis entre todas as sociedades do planeta. Basta andar nas ruas para constatar. O que se vê é algo que indigna profundamente e essa indignação se transforma em combustível de uma reação escrita. Uma escrita que dói, mas é extremamente necessária.
 

Por que decidiu colocar o povo, em especial pobres e negros, como personagem central nessa obra?

A arte é sempre um reflexo do tempo e do espaço em que vivemos e, no nosso caso, não há nada mais grave e impactante no nosso entorno, em termos humanos, que o drama social brasileiro. Cada vez mais, o pobre e o negro figuram como alvo em todos os projetos de poder que se desenvolvem no Brasil e a literatura sente essa tragédia.

Sempre foi assim, da escravidão às favelas, passando por Canudos, por exemplo. E cada vez se agrava mais. Penso sempre nos versos de Belquior: "Não me peça que eu lhe faça uma canção como se deve. Correta, branca, suave, muito limpa, muito leve". Eu sou do Rio de Janeiro, da Baixada Fluminense, de Duque de Caxias. Vivo essa overdose de preconceito social e racismo na alma. Não há como passar em branco. Essas pessoas atacadas diariamente são meus irmãos, meus amigos, meus colegas de infância. Cada uma dessas agressões ao outro corta também na minha carne. Creio que a arte tenha a obrigação de registrar isso. Mais do que tarefa intelectual é uma necessidade humana.
 

Vicente Portella / Fotos: Heraldo HB
Vicente Portella / Fotos: Heraldo HB

Muitos dos contos fazem parte de suas vivências, desde a infância, em Duque de Caxias? Poderia falar mais sobre isso?

Na verdade, não. Nunca vivi diretamente as atrocidades impostas a essa parcela mais frágil da nossa sociedade, apesar de ser um cidadão nascido e criado na Baixada. Os textos de O Pária são basicamente ficção, mas doem como a realidade.
 

De que forma considera que o povo brasileiro pode superar sua condição de opressão diante dos diversos agentes estatais e sociais que o exploram?

Historicamente, o Brasil é um país que não se tornou, ainda, uma nação. Os valores conservados por uma certa elite brasileira, sobretudo a elite financeira, colidem com todas as regras básicas de convívio social equilibrado, e essa elite, que controla o Estado brasileiro, dinheiro e poder, abomina o povo e seus valores. Darcy Ribeiro dizia que nossa elite é uma das piores e mais cruéis do mundo. Ele tinha razão.

A própria democracia representativa, no Brasil, é uma falácia, pois os governantes eleitos pelo povo representam, na verdade, os interesses do mercado. São em sua maioria pessoas obtusas, incapazes de compreender os problemas da sociedade e os sentimentos da população, principalmente das pessoas mais pobres. É gente que respira e se alimenta de dinheiro, só isso. Não leem, não pensam, não estudam.

Esses caras entregam nossas riquezas e o controle de nossa economia aos interesses estrangeiros e condenam nossa população a uma condição semiescrava.

A única forma do cidadão comum, coletivamente, escapar dessa lógica perversa, a meu ver, é adquirindo consciência da sua condição de cidadão, tão detentor de poder quanto os membros da elite que nos governa. E isso só é possível através de debates, papos, interação entre as pessoas e na construção de projetos políticos amplos, representativos e coletivos que possam promover a educação e a cultura. Há muitos jovens espalhados pelo país tentando construir algo assim. Eu acredito muito nessa garotada.
 

Está otimista com um cenário pós-pandemia? Acredita, que como alguns falam, as pessoas se tornarão menos egoístas e pensarão mais na coletividade?

Otimista, sim, quanto à superação. No que se refere a tornar a sociedade menos egoísta e com foco na coletividade, não creio, infelizmente. Pelo menos, não a curto prazo.

Mesmo em meio à tragédia há uma parcela enorme da população, principalmente em áreas urbanas, apostando no mal, no caos e na insanidade. Vivemos uma época terrivelmente individualista, influenciada pelos valores deletérios do famigerado "mercado". Tudo a nossa volta é constituído para transformar seres humanos em robôs, em autômatos, em adoradores do “Deus grana”. A tônica do mundo moderno é a ostentação. O dólar vale mais que a vida humana e ninguém liga. É a lógica do "pagando bem, que mal tem?". Vivemos a era da pós-verdade, da terra plana, das bolhas de ilusão individualista. Nós vamos superar tudo isso, claro, mas ainda vai levar algum tempo. A história é cíclica e estamos no meio de um ciclo vicioso. Mas isso também passa.
 

Quem são os seus autores preferidos?

Alguns autores são referências para o meu trabalho e para a minha vida. Gabriel Garcia Marques, Mário Quintana, Drummond, Fausto Wolff, Rubem Fonseca, esses caras são meus papas.
 

Está lendo algum livro no momento que gostaria de indicar aos nossos leitores?

Sapiens - uma breve história da humanidade, do Yuval Noah Harari. Terminei já faz um tempo, mas é certamente a melhor coisa que li nos últimos anos.
 

Qual dica você dá para quem pretende se iniciar na escrita?

Leia. Leia muito. Absorva, reflita, pense, repense, questione, duvide, leia novamente, indigne-se, reaja, fuja das armadilhas da leitura fácil, da superficialidade, da abordagem pueril e depois mergulhe o mais fundo que puder naquilo que te fascina. Repita a operação várias vezes e acima de tudo divirta-se. Literatura é responsabilidade, mas também é paixão.
 

Em quais locais o livro ‘O Pária e outros contos’ pode ser adquirido?

Por enquanto, as vendas se restringem ao universo on-line, no site da editora Viseu: https://www.eviseu.com/pt/livros/1532/o-paria-e-outros-contos/. Mas em breve, depois da pandemia, faremos uma bela festa de lançamento na Lira de Ouro, em Duque de Caxias. Até como desculpas para aglomerar e matar a saudade dos amigos!