Enviado por Shirley Costa em Qui, 22/04/2021 - 02:27
Bira da Vila / Foto: Ierê Ferreira
Fotos: Ierê Ferreira
 

Este não está sendo um ano fácil para o universo do samba, assim como para a classe artística e trabalhadores da cultura de um modo geral, um dos setores mais atingidos pela pandemia do novo coronavírus, desde 2020. No entanto, mesmo não podendo contagiar a todos com a sua alegria, em um ano sem Carnaval, o samba é sempre resistência. Em Duque de Caxias, um dos grandes representantes do gênero, o cantor, compositor e produtor musical Bira da Vila, conversou conosco sobre os impactos da pandemia em sua carreira, sobre a produção cultural baixadense e os seus novos projetos.

Nascido em 08 de janeiro de 1963, na Vila São Luiz, em Duque de Caxias-RJ, Bira compôs seu primeiro samba, O Malandrinho, com apenas 14 anos, em homenagem ao pai. No inicio da década de 80, teve a oportunidade de conhecer pessoalmente seu grande ídolo, Luiz Carlos da Vila, que o apadrinhou. O sambista tem composições gravadas por grandes nomes da música brasileira como Jovelina Pérola Negra e Zeca Pagodinho. Bira também compôs uma canção que se tornou um hino da liberdade em Angola.

Fiel às suas origens, o cantor é um grande defensor da Baixada Fluminense e de sua cultura. Em 2010, ele lançou o CD O Canto da Baixada, uma homenagem aos compositores de samba da região.
 

Confira o papo com o artista:
 

Como você está lidando com este momento de pandemia do novo coronavírus? De que forma interferiu em sua rotina artística?

A princípio, fiquei meio desesperado como toda a classe artística, com relação à sobrevivência, principalmente. Mas aos poucos fui me adequando ao momento e percebendo que como idealizador era o momento perfeito para idealizar projetos e me organizar profissionalmente para depois da pandemia e foi isso que fiz. Vi nos editais a oportunidade de pagar as contas e usei o resto do tempo para estruturar dois livros que estão em fase de finalização, um de crônicas e um romance que se chamará Pelos Olhos de Neneca, e estou aguardando uma verba para produzir um trabalho sobre a música da Baixada Fluminense.  
 

Como avalia o impacto da pandemia no mundo do samba, tendo em vista, por exemplo, o cancelamento do Carnaval?

O impacto da pandemia não foi só no mundo do samba, mas no mundo inteiro. Aqui, não só o mundo do samba, mas o mundo dos profissionais de arte em geral, dos profissionais da saúde e, principalmente, o povo pobre, que sem estrutura hospitalar, foi a maioria desses mais de duzentos mil mortos que pereceram por conta da incompetência dos nossos governantes. Quanto aos desfiles, sou favorável de ter só quando tiver vacina.    
 

Como você analisa a importância da Lei Aldir Blanc de incentivo à cultura para a produção cultural de Duque de Caxias?

Trabalho exclusivamente com música há 22 anos e, como artista, vejo a Baixada Fluminense como um todo, independente de ser de Duque de Caxias. Sempre tive consciência que na hora que tivesse um aporte financeiro mínimo, estruturaria a minha vida artística profissional. Como produtor cultural, a Lei Aldir Blanc ajudará a realizar esse que talvez seja o projeto mais importante da minha carreira. Pela primeira vez, poderei produzir eu mesmo um projeto sobre a música da Baixada Fluminense com tranquilidade. Esse será o legado da Lei Aldir Blanc, e me sinto muito orgulhoso de ter participado de seu convívio (de Aldir Blanc) como artista e da sua amizade. Poder hoje usufruir da lei em sua homenagem para estruturar a minha caminhada como artista e produtor cultural é uma grande honra. 

Você é um grande entusiasta da cultura da Baixada Fluminense, tendo lançado, por exemplo, o CD O Canto da Baixada, em 2010, com sambas de compositores da região. O que você acha que falta para que os artistas locais sejam mais valorizados e possam se dedicar mais a sua própria arte, podendo sobreviver dela?

Decidi usar a minha arte para discutir a Baixada Fluminense por onde ela me levou, não as mazelas e estereótipos e sim as suas riquezas, principalmente as culturais. Em meus shows pelo Brasil, sempre brinquei com a plateia se eles tinham um quadro em sua sala dos artistas plástico Messias Neiva ou Marco Bonfim ou um livro de um escritor chamado Vicente Portela, ou se já tinham ouvido um samba do seu Hélio Cabral, Jair Lobo, Manuel Santana, ou do Jorge Macarrão. Me dá muito prazer e orgulho falar da obra de cada um desses artistas. Até pouco tempo atrás, alguns artistas, em suas varias áreas, tinham vergonha de dizer que eram da Baixada Fluminense. A Baixada é o berço da criação independente. Existem aqui artistas que já tem o seu trabalho artístico reconhecido em muitos países, mas que são totalmente desconhecidos do povo da Baixada Fluminense. Em breve, a Baixada vai reconhecer e se orgulhar dos artistas daqui, escreva o que estou dizendo.    
 

Você compôs um samba, em parceria com o músico Riko Dorilêo, em homenagem a Angola, em 2002, inspirado no final da guerra civil que assolava o país, e que teve uma excelente repercussão entre os angolanos, se transformando em um hino de reconstrução. Você vê semelhanças entre a Angola e o Brasil, em especial com a Baixada Fluminense?

Ventos da Liberdade me fez pleno como compositor. Compor uma canção que embalou a nação de Angola é privilégio para poucos compositores, ainda mais uma nação que fica em outro continente. Tenho certeza que de lá vieram os meus ancestrais. Cantar uma canção que compus para unir uma nação que estava dividida por uma guerra civil me faz pensar que cumpri a missão que me foi confiada como compositor. Talvez a conclusão da missão seja compor uma música que conscientize e una o povo da Baixada Fluminense. Quem sabe! 

De que forma acha que o samba contribui ou pode contribuir com a igualdade social, a democracia e a justiça?

O samba sempre esteve na linha de frente contra as desigualdades e na luta por uma democracia plena. Um samba do Luiz Carlos da Vila embalou as “Diretas Já” na voz da Simone, um momento muito importante do nosso país na luta do povo brasileiro pela democracia. “Em cada palma de mão, cada palmo de chão, semente de felicidade...”. Essa é a função do samba, levar esclarecimento através da canção e se posicionar sempre contra a injustiça.
 

Quais são seus planos ou projetos musicais para este ano?

Vou produzir música e artistas da Baixada Fluminense, de todos os gêneros musicais.